UMA HISTÓRIA BEM ESCRITA

Com quase 20 anos no grupo Richemont atuando em marcas como IWC e Cartier, o francês Michel Cheval teve a oportunidade de assumir a direção da Montblanc no Brasil. E não hesitou. Nos últimos três anos, passou por descobertas, muitos desafios e, assim como a icônica marca para a qual trabalha, tiveram que se reinventar durante a pandemia.

Estamos vivendo tempos desafiantes como hoje o mercado de luxo está se reorganizando? Como foram os passos da Montblanc?

O negócio do luxo aqui no Brasil se mostra sempre resiliente e, na Montblanc, apesar dos desafios, conseguimos nos adaptar, principalmente investindo nos serviços para clientes. Seja na garantia ou na personalização de produtos, seja na migração intensa para o ecommerce que já estava estabelecido desde 2017, mas agora se consolidou totalmente e trouxe um crescimento importante. As ações de customer relationship contaram com a implementação de um aplicativo para conhecer cada cliente melhor, desde suas preferências até a data do seu aniversário, o que foi muito importante. O APP permite também um pós-venda personalizado, como por exemplo, o contato com uma mãe que, no ano anterior, recebeu de presente uma caneta Montblanc. Nós optamos por dinamizar a rede de clientes e funcionou muito bem. 

Como é o relacionamento com os clientes aficionados pela marca? 

Temos os colecionadores de séries limitadas, que continuam a comprar e todos os anos buscam as novas coleções. Entre elas, a Patronos das Artes. Embora o contato presencial com eles seja muito importante, neste ano não foi possível. Então fizemos reuniões por vídeo, para mostrar os produtos, incluindo pessoas da matriz especialistas da categoria, trazendo as histórias da produção. Foi uma ótima forma de manter o relacionamento. Outra coisa que me surpreendeu bastante foi que, quando eu cheguei ao Brasil, as pessoas sempre tinham uma história para contar com a Montblanc. Foi muito agradável. Quando eu dizia que eu era da empresa, eles falavam que tinham uma caneta, uma carteira e explicavam a conexão: “comprei uma Montblanc porque meu pai me ofereceu uma quando eu tinha 18 anos”, ou “ganhei uma Montblanc quando eu conquistei o diploma”. Tem um forte lado emocional aqui e eu considero isso muito interessante.

No mercado de luxo, são comuns as parcerias com outras marcas. Como funciona isso para a Montblanc?

Às vezes acontecem, principalmente para fazer cápsulas, ou seja pequenas produções destinadas para uma região ou mercado. Por exemplo, há alguns anos fizemos no Japão com marcas locais. Outra iniciativa que chamou a atenção de nossos clientes foi a parceria com a Pirelli, pois usamos miniaturas dos famosos pneus P Zero, o mesmo utilizado em carros de corrida, nas rodas das malas de bordo Montblanc. Aliás, essa ação reflete a diversidade dos nossos produtos, uma das coisas que pessoalmente sempre gostei na marca. A Montblanc tem um imenso leque de opções, para todos os budgets.  

Isso inclui a tecnologia, não é? 

Sim. Estamos sempre levando em conta a clientela mais jovem e conectada e temos a categoria de produtos inteligentes, com relógios conectados, headphones e o augmented paper, que permite a digitalização da escrita a mão em um caderno aparentemente normal. O Brasil gosta muito desses produtos, sendo o país que tem o maior índice nas vendas de produtos de tecnologia, se considerarmos a porcentagem de vendas.  

E o Michel viajante? Como gosta de conhecer o mundo: 

Bem, já viajei muito, pois morei em Dubai, Miami, Moscou, Taipei, mas hoje estou mais parado por conta da situação. Fui à França no ano passado, mas ainda assim, menos do que antes, pois as reuniões passaram a ser online. Quanto ao Brasil, além das viagens de negócios às capitais, que faço regularmente, gostaria de descobrir mais o país, passar um tempo na Amazônia, conhecer o Pantanal. A minha última viagem foi de carro, passando pelo Espírito Santo e chegando ao Sul da Bahia, em Itacaré. Tive a experiência de comer o Caranguejo Azul que vinha fresco do rio! Na América do Sul, estão na minha lista (ela é bem grande) o deserto do Atacama, a Patagônia e também voltar ao Peru. 

Pelo jeito você gosta de destinos onde a natureza é o foco. Isso tem a ver com os seus hobbies? 

Sim, adoro velejar e quando estava em Miami eu tinha um barco e velejava bastante. Aqui, gosto de fazer trilhas, fiz o Caminho Real e também a Estrada da Serra do Mar no Parque Estadual onde, além da mata original, pude ver construções e monumentos do ano de 1790. Também gosto do litoral norte de São Paulo, para onde me refugiei durante a pandemia algumas vezes. 

E por falar nessas belezas naturais, como é a conexão da marca Montblanc com a questão da sustentabilidade? 

A empresa tem evoluído nas questões da sustentabilidade e trazido narrativas que aproximam o homem de seu meio tanto na comunicação como na concepção dos produtos. A coleção 1858, relógios que se conectam com você mesmo e com o planeta, é um exemplo disso. Tivemos outras iniciativas também como a de lançar coleções que não usam couro como matéria-prima atendendo a um público que já manifesta essa exigência. 

Acha que escrever a mão é algo que ainda faz sentido no mundo de hoje?

A escrita faz parte dos momentos especiais da nossa vida. As memórias da nossa aprendizagem escolar, a escolha da assinatura que levaremos para a vida, a primeira carta de amor. Acho que o ser humano vai precisar voltar aos seus momentos de emoção para se reorganizar no mundo. Claro que a nova geração já está preparada para o futuro integrando a tecnologia, mas, de modo geral, cada vez mais vamos precisar levar em conta o reconhecimento emocional e social das pessoas. Sempre é necessário um equilíbrio.

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